Para que haja esperança num mundo em incerteza.
As certezas foram ganhando novas configurações a partir dos finais do século XX com o que se denominou “mundo pós-moderno” e a conceção de “pós- verdade” – o relativismo e o ceticismo crescem em toda a sua plenitude.
Em quê e em quem podemos acreditar e confiar? As instituições ainda respondem às necessidades dos seres humanos? Quais os critérios de bem e de mal? Tudo vale?
Um dos princípios mais divulgados sobre o futuro é da responsabilidade do
sociólogo Zygmunt Bauman: a única certeza é a incerteza. Nas últimas décadas, as instituições, as relações, o trabalho e as estruturas sociais em geral deixaram de ser sólidas e previsíveis. Não se trata de uma visão pessimista sobre a realidade, mas esta nova visão do futuro exige que, face ao clima de incerteza, sejamos mais determinados e corajosos nas decisões.
Nos dias 8 e 9 de outubro, a Fundação Calouste Gulbenkian foi palco para um conjunto de palestras/debates guiadas pelo tema “Num mundo em incerteza” (7.ª Conferência de Lisboa). Durante estes dias, debateram-se, entre outros, temas que nos lançam desafios num mundo em incerteza: a nova reconfiguração mundial, o enfraquecimento de instituições como a ONU, o agravamento de conflitos à escala nacional e mundial, uma nova visão sobre a globalização e o desenvolvimento, a crise climática, a inteligência artificial e a sua relação com o poder e com a guerra e o crescimento dos nacionalismos.
Especialistas internacionais abriram caminhos para possíveis respostas políticas, económicas e sociais.
No contexto da vivência cristã, urge encontrar respostas iluminadas por outros critérios. Na Encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV descreve a pós- verdade como uma espécie de falência da razão, em que a realidade é relativizada em benefício de convicções moldadas por fatores puramente afetivos e ideológicos, e não por factos ou pela verdade objetiva. Ainda sobre o poder político, as democracias e as suas lideranças, em abril passado, a propósito da “Sessão Plenária da Pontifícia Academia de Ciências Sociais”, Leão XIV afirmou que “a legitimidade da autoridade não depende do poder económico ou tecnológico que se tem, mas da sabedoria e da virtude por quem é exercida.” A democracia exige ter raízes na lei moral e numa verdadeira visão da pessoa humana. Mesmo com todas as mudanças, mesmo com todas as incertezas, sem a lei moral que oriente a conduta humana para distinguir o bem do mal, a democracia pode tornar-se numa tirania!
Para que haja esperança neste mundo de incertezas, recentremo-nos na Pessoa em toda a sua dignidade.
Eduardo Marques | Grupo Missão Mundo