Precisamos de nos constituirmos como um «nós» que habita a casa comum!
Nas últimas décadas, deram-se passos significativos no âmbito da cooperação e na responsabilização dos cidadãos e dos Estados para com a justiça social, na sua dimensão global. As missões católicas têm uma presença histórica nos países em desenvolvimento, pelo menos com duplo objetivo, por um lado, a missão evangelizadora e, por outro, criar as condições para que cada ser humano se sinta protegido na sua dignidade, tendo em vista a emancipação das sociedades, nomeadamente, naquelas em que a pobreza teima a eternizar-se.
A igreja, na sua missão, continua a ser uma voz atenta aos problemas da justiça social – lembremo-nos de alguns documentos determinantes para compreender o sonho de Deus em cada tempo. Rerum Novarum, 1891 (Leão XIII); Mater et Magistra, 1961 (João XXIII); Pacem in Terris, 1963 (João XXIII); Populorum Progressio, 1967 (Paulo VI), Laudato Si; , 2015 (Francisco), Fratelli tutti, 2020 (Francisco), entre outros. Este último documento, salienta a fraternidade e a amizade social entre todos os povos, procurando superar a indiferença e construir um mundo mais justo e solidário. Leão XIV continua esta preocupação, bem visível na exortação apostólica Dilexi te (2025) e na sua primeira encíclica Magnifica Humanitas (2026).
A sociedade civil, liderada pela ONU, tem feito o seu caminho, alertando, promovendo conferências e compromissos entre os países, de forma, a que se sintam parte responsável do mundo global. Partilhamos o mesmo mundo, somos responsáveis pelo seu presente e futuro. As questões da susten- tabilidade e do desenvolvimento não podem deixar de estar na agenda dos Estados. No ano passado, em Sevilha, promovida pelas ONU, realizou-se 4ª Conferência de Financiamento para o Desenvolvimento. Esta conferência reuniu líderes políticos, financeiros e comerciais com o objetivo de formular uma abordagem coerente das questões que afetam o desenvolvimento global, desde a ajuda financeira até ao comércio e à dívida.
Acreditamos que estas medidas podem ter um impacto muito importante nas pessoas que vivem em países em desenvolvimento. Sinal de preocupação é o facto de alguns países (EUA, por exemplo) cancelarem o seu apoio nas áreas dos projetos socias, de investigação e saúde.
Na Fratelli tutti, fomos alertados para este sinal do tempo: “a história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrónicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, uma certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais.”
Aspiramos a uma visão da justiça social, do desenvolvimento sustentável e da fraternidade universal que tenha como finalidade a construção de um mundo mais humano e equitativo.
Perante o regresso do isolacionismo e da hegemonia, continuemos a dizer como Francisco:
“precisamos de nos constituirmos como um «nós» que habita a casa comum!”
Eduardo Marques, Grupo Missão Mundo