viver e morrer com dignidade.
A experiência da fragilidade da vida no confronto com o sofrimento físico e
psicológico é inerente à condição humana. A maior evidência dessa
vulnerabilidade é a nossa finitude.
“Somos seres para a morte”, dizia-nos Heidegger. A morte é uma dimensão constitutiva da nossa existência.
Apesar destas certezas, a morte será sempre um mistério e surge enraizada na experiência do sofrimento e da perda. As causas de morte repetem-se
(doenças, acidentes, etc.), mas o sofrimento é sempre único.
Como humanos e cidadãos, como cuidamos da vulnerabilidade humana face à doença e ao sofrimento? Qual a responsabilidade do Estado? Nos últimos dias, a Associação Nacional dos Cuidados Continuados deixou o alerta: nos últimos cinco anos os cuidados continuados em Portugal perderam 750 camas. As razões foram identificadas – em resumo, a falta de investimento por parte das instituições políticas do Estado.
O cuidar é um imperativo ético da comunidade, impõe-se como responsabilidade coletiva das instituições humanas em diferentes dimensões – saliente-se, nestes casos, uma dupla responsabilidade: reabilitar e recuperar a autonomia das pessoas em situação de dependência temporária ou permanente, motivada por doenças crónicas, em convalescença pós-cirúrgica ou pós-trauma (cuidados continuados) ou cuidar do conforto global e alívio do sofrimento em doenças graves, progressivas ou avançadas onde a cura já não é possível (cuidados paliativos).
Nas últimas décadas, o estudo interdisciplinar relacionado com os cuidados da fragilidade e do sofrimento perante as doenças temporárias ou doenças
terminais tem sido muito importante e diversificado: ética, medicina, psicologia, psiquiatria, serviço social, filosofia, espiritualidade e religião.
A este propósito recordemos duas cartas apostólicas: Salvifici Doloris, 1984 (João Paulo II) e Samaritanus Bonus, 2020 (Francisco). A primeira, sobre o sentido cristão e teológico do sofrimento; a segunda, sobre o sentido das fases terminais da vida, por exemplo, a problemática dos cuidados continuados e da eutanásia.
A obrigação de oferecer às pessoas a oportunidade de viverem bem ou com a melhor qualidade possível até ao dia da sua partida devia de ser algo também inerente à condição humana. Para uma ética do cuidado, saibamos assumir a caminhada natural do nascimento até à morte, num compromisso coletivo de aliviar, protegendo com um manto (pallium) de afeto, aqueles que se encontram num sofrimento físico, psicológico e espiritual – cuidemos do direito de viver e de morrer com dignidade.
Eduardo Marques | Grupo Missão Mundo