A presença do mal continua a ser uma evidência na humanidade. Diferentes rostos do mal parecem ser parte da nossa natureza: perpetuação de conflitos, violência, guerras, assassinatos, violência doméstica, abuso de poder, vontade de subjugar o outro para proveito próprio, exploração económica, marginalização através da indiferença, pobreza e atentados ao meio ambiente e à nossa casa comum. Estará o ser humano está destinado ao mal? O mal é uma fatalidade e uma inevitabilidade ou somos seres para o bem? Se Deus é omnipotente e bom, por que razão permite o mal e o sofrimento?

A complexidade do problema filosófico e religioso do mal tem sido objeto de reflexão ao longo dos tempos e não podemos esgotar a suas tentativas de resposta nesta pequena partilha. O tema está a ser recuperado com a série “A Leste do Paraíso” estreada, por estes dias, num canal de streaming. A série e o clássico filme de 1955 são baseados na obra de John Steinbeck, com o mesmo nome. Um drama psicológico sobre a condição humana e as relações familiares, sobre a humanidade e a sua natureza má ou boa, ou a natureza má dos seres humanos aparentemente bons.

A obra recupera a história de Caim e Abel: “O Senhor disse a Caim: «Porque estás zangado e de rosto abatido? Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto; se procederes mal, o pecado deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te. Cuidado, pois ele tem muita inclinação para ti, mas deves dominá-lo”.

A síntese da obra apresentada na mini-série de sete episódios, remete-nos para o problema radical do livre-arbítrio e para a possibilidade de domínio do ser humano sobre o mal. O “tu deves” bíblico surge em muitas versões hebraicas, como “tu podes” (timshel). Não se trata de uma ordem, de uma obrigação que vem de Deus, mas de uma possibilidade que Deus te dá, de poderes dominar o mal, escolhendo o bem. O mal não está impregnado na natureza humana como uma fatalidade, o ser humano é livre de poder escolher entre o mal e o bem. O “tu podes” assume também uma dimensão de perdão, tu podes rejeitar o mal e aceitar o perdão – para ti mesmo e em relação aos outros.  No final da história de Steinbeck, o filho, no leito de morte do seu pai, carregado pela culpa do mal que fez ao seu irmão, espera o perdão do seu pai. O pai, sem forças, consegue dizer “timshel”: Tu podes.

O mal não é uma inevitabilidade. A herança biológica e social, o ambiente em que se vive, a educação, os traumas, o mal realizado no passado, influenciam o homem, mas não o definem. A capacidade de escolher e o poder da decisão representam a rejeição de qualquer fatalismo. Não estamos determinados para o mal nem para o bem, mas o que torna a alma humana grandiosa é a escolha do bem. Somos chamados à responsabilidade individual e coletiva: tu podes, nós podemos!

Para que o mal não seja uma fatalidade!

 

Eduardo Marques | Grupo Missão Mundo

“oceano no qual me mergulho e perco” (MI)

Em Deus, a nossa vida encontra o sentido, o seu lugar. Às voltas com Deus, voltamos a casa. Somos procurados, amados e enviados. Somos, infinitamente, buscadores apaixonados de Deus. Vivemos mergulhados no silêncio, na oração, na contemplação, no serviço e no encontro, trilhos que permitem a escuta e o espanto perante a possibilidade do Outro, de ser palavra sua e reino seu, espaço de bondade e beleza que revela Deus.