Deus consegue falar-nos através das coisas mais pequeninas e também de formas bastante inesperadas. Foi isso que aconteceu comigo num fim de dia pós-verão, quando cheguei a casa depois do trabalho. Ao fazer zapping automático na televisão, deparei-me com o filme Gifted. Surpreendentemente, conseguiu captar a minha atenção e fazer com que o gesto mecânico de mudar de canal parasse por ali.

Este filme conta a história de uma menina, Mary, de 7 anos, que tem capacidades acima da média e uma vocação extraordinária para a matemática. O mesmo já acontecera com a sua mãe, que trabalhava incessantemente na resolução de um problema matemático. Contudo, tinha morrido sem conseguir mostrar ao mundo esse trabalho. É este contexto que leva a que Mary vá viver com o seu tio Frank. Este abdica de uma carreira académica promissora para se mudar para uma pequena cidade piscatória com a sobrinha, tudo para que esta possa levar a vida mais normal possível.

O filme retrata a luta pela guarda de Mary entre Frank e a mãe deste, avó de Mary. A avó tem uma visão para o futuro da neta diametralmente oposta àquela em que acredita Frank. E foi a este propósito que este filme me fez refletir sobre as duas formas como aquelas duas pessoas olhavam para Mary. Por um lado, a avó, que olha para ela reconhecendo todo o seu potencial intelectual. Trata-a bem, não lhe deixa faltar nada e oferece-lhe as melhores condições para viver e estudar. Por outro lado, o tio, que prefere ver o seu lado mais humano e vulnerável e reconhece o seu imenso valor, além das suas extraordinárias capacidades. Este aspeto fica evidenciado na cena em que Frank leva Mary até uma maternidade. Quer que ela perceba a alegria das famílias quando nasce um bebé. Conta-lhe que, quando ela nasceu, frágil e indefesa, e ainda não sendo conhecidas as suas capacidades diferenciadas, tinha havido uma festa igual àquelas a que ela assistia.

Nesta história, ninguém quer o mal de Mary. Pelo contrário. Mas o amor de Frank por ela é um amor que se revela na presença e no cuidado. É um amor desinteressado. E não é também assim que Deus nos ama? Não pelo que conseguimos alcançar, pelos nossos talentos ou capacidades diferenciadoras, mas simplesmente porque somos Seus filhos?

Deus conhece aquilo que somos para além daquilo que mostramos ao mundo.Vê as nossas capacidades, mas também as nossas fragilidades. Conhece os nossos sonhos, mas também acolhe os nossos medos.

A história de Mary preencheu aquele meu serão. Num mundo que corre louco atrás dos sucessos e da construção desenfreada da “melhor vida possível”, esta história obrigou-me a recordar o nosso verdadeiro (e mais importante) valor. Esse valor que encontra lugar muito antes de qualquer das nossas conquistas ou qualidades.

Maria Cabral Fernandes

“oceano no qual me mergulho e perco” (MI)

Em Deus, a nossa vida encontra o sentido, o seu lugar. Às voltas com Deus, voltamos a casa. Somos procurados, amados e enviados. Somos, infinitamente, buscadores apaixonados de Deus. Vivemos mergulhados no silêncio, na oração, na contemplação, no serviço e no encontro, trilhos que permitem a escuta e o espanto perante a possibilidade do Outro, de ser palavra sua e reino seu, espaço de bondade e beleza que revela Deus.