"O Caminhante sobre o Mar de Névoa", de Caspar David Friedrich.
"O Caminhante sobre o Mar de Névoa", de Caspar David Friedrich.

O Caminhante sobre o Mar de Névoa, de Caspar David Friedrich, é uma pintura que sempre me cativou. Conheci-a nas aulas de História, no liceu, e desde logo me despertou curiosidade. Sempre que olho para este quadro penso: “O que estará este homem a pensar?”; “O que o terá levado a subir até ali?”.

De pé, apoiado na sua bengala, transmite confiança e coragem, mas a contemplação daquela imensidão faz-me imaginar que procura respostas para algumas das suas inquietações.

O homem ocupa o centro da pintura e parece ter conquistado aquele rochedo, mas não conquistou a paisagem. Diante dele existe uma imensidão que se estende muito para além daquilo que consegue ver. Faz parte dela, tal como nós fazemos parte de algo maior do que nós. É também por isso que a névoa me parece tão importante. Impede o caminhante de ver tudo aquilo que o rodeia, mas não faz desaparecer a paisagem. Ela continua ali, mesmo onde o seu olhar já não alcança.

A Sua presença também não depende da nossa capacidade de O ver. Deus não é visível aos nossos olhos e, ainda assim, está presente em tudo aquilo que nos rodeia.

O facto de o caminhante estar de costas reforça, para mim, esta ideia. Não conhecemos a sua expressão nem sabemos exatamente o que sente perante aquela imensidão. Podemos, por isso, colocar-nos no seu lugar e contemplar a paisagem através dele. Por outro lado, apesar de estar sozinho naquele rochedo, não me parece verdadeiramente só. É precisamente essa sensação de presença, mesmo sem existir outra figura visível, que me faz pensar em Deus.

Talvez seja por isso que esta obra me continua a fascinar. Lembra-me que aquilo que os nossos olhos não conseguem ver não deixa, por isso, de estar presente. Tal como a paisagem continua para além da névoa, Deus está para além do que é visível e, ao mesmo tempo, presente em tudo aquilo que nos rodeia.

 

Rita Cabral Fernandes

“oceano no qual me mergulho e perco” (MI)

Em Deus, a nossa vida encontra o sentido, o seu lugar. Às voltas com Deus, voltamos a casa. Somos procurados, amados e enviados. Somos, infinitamente, buscadores apaixonados de Deus. Vivemos mergulhados no silêncio, na oração, na contemplação, no serviço e no encontro, trilhos que permitem a escuta e o espanto perante a possibilidade do Outro, de ser palavra sua e reino seu, espaço de bondade e beleza que revela Deus.