Um fado que não o é, mas é. A música ‘Memória’, interpretada pela fadista Carminho e pela artista pop Rosalia, é um fado que traz um toque diferente pela voz da artista espanhola. A música tem alma de fado, para mim é fado, e é livre.
Tem sabor de melancolia, e por ser fado e se chamar ‘Memória’, a música é carregada de nostalgia. ‘Memória’ toca-me de várias formas. Começo pela melodia: mesmo que se eu não percebesse português ou espanhol, a música ia-me arrepiar na mesma. As diferentes notas, os silêncios, a garra e a angústia nas vozes, a dança entre os sons de língua portuguesa e o espanhol, a melodia do português nos lábios da cantora espanhola. A música aperta-me a garganta até criar um nó, e o crescendo instrumental vem para o desatar.
Ainda não consegui ouvir esta música sem chorar. A letra também me fala de várias maneiras. Primeiro é como se me ouvisse a mim própria a falar do passado e do futuro: como se quem fui no passado me perguntasse se me lembro de quem fui, e se o meu futuro me perguntasse se ainda sei quem sou. Depois é como se quem já não vejo com os meus olhos nem sinto com as minhas mãos, mas que existe, me perguntasse, a medo, se ainda me lembro. Também me faz pensar em quem se sente abandonado e só, à espera de que alguém se lembre. Noutras quadras sinto como se alguém com a memória a desvanecer-se, me suplicasse para eu eternizar as suas memórias. Ainda oiço Deus a tentar lembrar-me da nossa relação que está em constante reencontro.
E tudo isto é fado. Fado é lembrar que somos quem fomos e quem seremos. Morrer para renascer. É lembrar que somos feitos dos que nos amam e amamos. É lembrar que somos os lugares e somos os encontros. É a alma que canta e chora. É ir até ao fundo; é sentir que Deus nunca me deixa, mesmo quando me esqueço.
Costumamos dizer que há muitos que são cristãos sem saber. E há fados e músicas que são orações sem saber. Muitas vezes a cantar, estamos a rezar sem saber. Ou estamos a rezar duas vezes (dizíamos no grupo de jovens). Às vezes canto quando me lembro que me esqueci de rezar. Como são bonitas as formas que Deus tem de nos encontrar.
E hoje respondo: Sim, lembro-me.
Andreia Ribeiro